ANTROPOANTRO NO CUBO BRANCO
MACC Campinas-2007
Passeando pelos Cubos no Cubo Branco
Oito caixas (fechadas?) de madeira rústica, cada uma com seus desenhos de nós. Cubos no enorme Cubo Branco do museu. Mundos fechados? O que guardam? Como desvendá-los?
O caminho, cada um que trace o seu. Eu começo pelo meu lado esquerdo
Walma Lina expõe uma jóia minimalista em sua simplicidade. Sem Título. O minúsculo cubo dourado brilha sobre um pedestal quase invisível, lança sombras geométricas no cubo de madeira suporte de escultura – cubo sobre cubo dentro de cubo dentro do grande Cubo Branco da galeria. Formas multiplicadas. O contraste de tamanhos. Formas encaixadas umas nas outras, o grande contendo o mínimo. Caixa de jóia? Quem viu as imensas colunas moles instaladas na Esamc, ou os rolos/rodas de cor instalados no Casarão se espantou com o cubinho/jóia do MACC. O parentesco com os objetos geométricos mostrados na Comunitária salta aos olhos – o cubinho é um irmão menor e mais traquinas, mais sofisticado também na sua linha dourada que se opõe à pobreza do barbante. Trabalho de desenhista tecelã que brinca com desenhos formados na trama do crochê, nas formas tecidas com esmero.
Beth Schneider e seus Ex-votos, o universo religioso retomado ironicamente na capela de... Banca de Revistas? Quem chega na “porta” desta capela é logo avisado, por um texto carimbado no chão, que se trata de lugar de exposição de Ex-votos. Mas, as paredes, ao invés das usuais peças de cera agradecendo milagres, estampam um emaranhado de revistas que se sobrepõem, formando relevos e confundindo a vista. Há alguma coisa ali, não são apenas revistas cobrindo paredes. O dourado dos carimbos vai surgindo aos poucos, conforme o expectador se movimenta e a luz incide sobre GRAÇAS ALCANÇADAS AGRADEÇO. Sutileza de carimbos dourados agradecendo graças alcançadas em escândalos/notícias sensacionalistas que fazem capas coloridas de revista de alcance nacional. Agradecer escândalos? Desgraças? Corrupção política? São essas as graças que temos alcançado? Na linha das santinhas sorridentes (Kairós), do pedido de perdão escrito na areia que ocupa no chão da faculdade (Esamc), do jogo de damas santas versus damas mundanas (Casarão), a ironia é a marca do trabalho de Beth Schneider. Ela não consegue escondê-la, nem querendo. Mesmo ao lidar aparentemente só com cores (Comunitária) o preconceito racial é discutido na ironia dos bonequinhos pintados.
Inês Fernandez propõe a fragilidade do Inviolável. Uma cortina de correntes impede a entrada num espaço vazio onde brilha, em néon, a palavra Inviolável. A branda interdição detém os adultos que, obedientes, apreciam da porta as paredes pintadas e o letreiro que apenas avisa, no seu branco de luz, sem ameaçar. O tapete convida os pés e reflete a sombra das correntes. Violar o inviolável, só mesmo a primeira criança que, num rompante, afasta as correntes de plástico - antes tão pesadas no seu marrom escuro de ferro fingido - e entra no recinto abrindo caminho aos adultos. A irreverência da criança dá o exemplo. Inês Fernandez brinca com o sentido das palavras, questiona a violação constante de nossos frágeis invioláveis, supostos “direitos” sempre e cada vez mais violados. Como fez em Descontrole, mostrado no Casarão, ou no Resta um, da Comunitária, ou ainda no Vendo Arte da Ocupação na Esamc, a artista brinca com palavras e expressões, com suas ambigüidades, polissemias, num jogo de lingüista intuitiva.
Olívia Niemeyer leva-nos a Caixa da Memória. Paredes forradas de reproduções em preto e branco de uma foto antiga, meio embolorada, de uma figura de mulher num antigo vestido de baile? A legenda - Vestido de Baile - não deixa dúvidas. Que baile foi esse? Que mulher é essa? Os rasgos irregulares do arrancar dos papéis que forram as paredes traduzem um tempo já passado, mas que deixou marcas, que se reproduzem infinitamente e de maneira sempre nova e igual em memórias, refletidas, multiplicadas nos muitos espelhos, nas frágeis transparências e nos lampejos caleidoscópicos que dançam e brincam no chão querendo fugir (ao controle?). Uma nostalgia do passado toma conta da gente. Uma nostalgia que aparece também na Série Animal (mostrada no Casarão), aí sob a forma de desenhos sutis que são como fantasmas do passado rasgando a tinta das telas.
Sílvia Matos. Ela também está lá, nas linhas de astúcias, de fios e de tramas... Bem no centro, ela também tece, no semicírculo de mulheres/deusas tecelãs, retratadas não mais com tintas e pincéis como costumava fazer (e que beleza são os retratos de Sílvia Matos!), mas com modernos instrumentos digitais! O fundo espelhado e a transparência das fotos refletem e incluem o expectador neste círculo que tece... o quê mesmo? Retratando as artistas do grupo, a obra traz à baila a mútua influência, o fazer junto de uma raridade que é um grupo de artistas que produz coletivamente mantendo, sempre, a individualidade de cada membro. O coletivo faz-se do individual. Ao incluir neste círculo de tecelãs o expectador, o outro, aponta-se para o fato de que a obra de arte é também trabalho de quem a aprecia e não simplesmente de quem a propõe. Como na linguagem, o diálogo eu/outro é constitutivo do fazer artístico (tinha razão Bakhtin).
Tina Gonçalez propõe um diálogo com Malevitch, nada mais, nada menos. No cubo forrado de tela branca - chão e paredes - surge o Branco sobre Branco de Malevitch, em reprodução plotada. As pegadas de quem entra para ver de perto, marcadas na tela que cobre o piso, introduzem novos tons no branco sobre branco, deixando claro e evidente que há brancos e brancos, que a pintura está longe de acabar. O cubo é ele mesmo uma pintura em branco sobre branco onde a tinta não entra, é fugidia como a tinta na água que as mãozinhas de crianças tentam alcançar (no trabalho apresentado na Comunitária). Assim como as fissuras nas paredes - fotografadas por Tina Gonçalez (Casarão e Esamc) - tornam-se pinturas, a instalação apresentada em Diálogo com Malevitch pode ser vista como pintura. Tina Gonçalez é uma pintora que não usa pincéis!
Vane Barini, quem disse que ela é fotógrafa? Com Fora de Si ela surpreende os apreciadores de sua arte como fotógrafa, aqueles que esperavam ver fotografias. Um cubo todo pintado de branco, com uma escada também branca encostada no fundo pode até ser fotografado e resultar em belas fotos, mas não é fotografia. No entanto, ele tem tudo a ver com fotos feitas por Vane Barini. O que há de comum entre Fora de Si e os retratos mostrados na Comunitária, o Com-viver apresentado no Casarão, e o trabalho Sem Título instalado nos vidros do hall central da Esamc? Os três últimos são fotografias, mas o que os distingue e une a Fora de Si é o ponto de vista inusitado que apresentam: os retratados de costas para a câmera, a multidão exposta numa fotografia invertida de ponta cabeça, os deta
lhes minuciosos de um jorro de água. Fora de Si, em sua singela brancura, convida o freqüentador de No Cubo Branco, a ver a exposição de um ponto de vista inusitado – do alto da escada, numa visão de cima. Uma visão que abarca todo o espaço do Cubo Branco, que permite apreciar os outros sete cubos (e o meio teto do oitavo) de um outro ângulo e em conjunto, que possibilita outras visões do público, das sombras, das coisas, de todo o conjunto da exposição. Fora de Si aponta para todo o trabalho de Vane Barini: a busca constante de pontos de vista inusitados, outros...
Lalau Mayrink
Lalau Mayrink. Mafagafos ao Cubo. Pequenos retângulos e quadrados de papel desenhados cuidadosamente com caneta esferográfica, alternando vermelho, azul e preto. Insetos e animais estranhos, imagens sem referentes, frases indecifráveis e pequenas esferas compõem um universo agrupado sem rigor obsessivo, figuras insólitas costuradas pelo vermelho vivo que aparece nos entremeios.
Partindo de um processo de aparente simplicidade - “ócio criativo” poderíamos pensar - Lalau Mayrink explora a força da acumulação de mais de 2000 desenhos. É impossível nos contentarmos com uma contemplação passiva, é preciso entrar no jogo, deixar o olhar correr levemente sobre os papéis, aproximar-se ao acaso, explorar detalhes, investir na criação de significados com elementos díspares: um estado de espírito. A leveza dos desenhos é reforçada pelo ritmo instável criado pela sucessão de espaços vazios e cheios.
Inesperadamente, apesar do trabalho de Lalau se inserir vigorosamente na contemporaneidade, podem vir à memória as galerias e os museus de antigamente, onde as obras cobriam as paredes de alto a baixo, bem antes da invenção do “cubo branco”, conceito que motiva essa exposição do grupo Antropoantro.
Olívia Niemeyer