
E a conversa das duas continua, agora a propósito de algo que foi enviado para o Canal Contemporâneo:
De Olívia para Lalau:
E fiquei em dúvida se envio o texto que fala sobre o Derrida.
Lalau, vc não gostaria de escrever alguma coisa?
De Lalau para Olívia:
Eu? Escrever sobre o Derrida? Tá louca? A nossa especialista em Derrida é você! E a Tina também...
Eu gosto mesmo é das coisas bem decididas. Acho que os indecidíveis existem só no abstrato (numa visão que abranja tudo de uma vez, impossível para um simples mortal...como eu). Um simples mortal como eu, vendo alguma coisa, acaba tomando partido e decide "é pau" ou "é pedra".
Ou então fica bem caladinho, se não conseguir decidir por um ou outro... vai escutar o que os outros estão dizendo e decidir, se não entre as coisas, entre os outros...
Eu não consigo me decidir, por exemplo, a ler o Derrida direitinho. Até li aquela história da farmácia, o livro praticamente quase todinho... Mas continuo gostando mais de Guimarães Rosa: "Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida?"; "Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."
E, finalmente, como um gran finale em sua homenagem:
"Ser chefe - por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores".
Agora vou dormir, porque "... em roda de fogueira, toda conversa é miudinhos tempos".
Eu decido: Amo o Guimarães Rosa! (mas olhando de longe ele continua indecidível prá muita gente...)
De Olívia para Lalau:
... o indecidível é decidido a cada vez. O secador de garrafa que tem na pia do Fajardo não vale muitos $, não é arte. O do Duchamp no museu vale $$$$$$$$$$$, é arte. Mas para nós e para quem conhece o trabalho do Duchamp, quando olhamos o secador de garrafas do tio Fajardo, somos deslocados para o do museu e vice-versa: quando olhamos um ready made caríssimo, ele não está absolutamente separado daquilo que compramos no super mercado. Isso é muito diferente (são reflexões que surgiram depois da guerra, eram bem revolucionárias) do que dizia a estética tradicional, que afirmava que arte era absolutamente separada da vida. Para o Derrida, você decide a qualquer momento, mas arte pode ser examinada a partir dessa noção de indecidível, algo que é 'contaminado' (ele gosta tb de vírus) por seu oposto, vc fica indecisa, em um primeiro momento, entre remédio e veneno quando lê sobre o farmakon (mas vai decidir que é veneno e não tomar, por exemplo). Derrida desconstrói as dicotomias (sujeito/objeto; arte/não arte; fora/dentro, etc.) sempre em dois movimentos: primeiro faz uma inversão (e vai complicar a separação entre arte/não arte e depois ele vai criar outra forma de examinar essa relação) e essa noção de indecidível é de grande ajuda e está emaranhada com as outras reflexões derridianas...
De Lalau para Olívia:
É isso aí. Derrida não é um simples mortal como cada um de nós. Ele examina lá de cima, vê todos os lados, vê o indecidível que paira sobre tudo... Nós, simples mortais, encaixotamos as coisas em "és" e "não és", vemos o secador de garrafa como arte ou não arte dependendo do quanto conhecemos sobre a história da arte... Esta simples mortal aqui consegue ver "A Fonte" do Duchamp como Arte porque vê o gesto atrevido de Duchamp na sua época lá dele, questionando a história da arte até então... os urinóis posteriores deixam de ser "A Fonte" porque não passam de simples repetição do gesto duchampiano e imitação não é criação, portanto, não é Arte (por mais que se paire acima, acho que não dá pra dizer que a Arte imita, dá?)
E fiquei em dúvida se envio o texto que fala sobre o Derrida.
Lalau, vc não gostaria de escrever alguma coisa?
De Lalau para Olívia:
Eu? Escrever sobre o Derrida? Tá louca? A nossa especialista em Derrida é você! E a Tina também...
Eu gosto mesmo é das coisas bem decididas. Acho que os indecidíveis existem só no abstrato (numa visão que abranja tudo de uma vez, impossível para um simples mortal...como eu). Um simples mortal como eu, vendo alguma coisa, acaba tomando partido e decide "é pau" ou "é pedra".
Ou então fica bem caladinho, se não conseguir decidir por um ou outro... vai escutar o que os outros estão dizendo e decidir, se não entre as coisas, entre os outros...
Eu não consigo me decidir, por exemplo, a ler o Derrida direitinho. Até li aquela história da farmácia, o livro praticamente quase todinho... Mas continuo gostando mais de Guimarães Rosa: "Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida?"; "Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."
E, finalmente, como um gran finale em sua homenagem:
"Ser chefe - por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores".
Agora vou dormir, porque "... em roda de fogueira, toda conversa é miudinhos tempos".
Eu decido: Amo o Guimarães Rosa! (mas olhando de longe ele continua indecidível prá muita gente...)
De Olívia para Lalau:
... o indecidível é decidido a cada vez. O secador de garrafa que tem na pia do Fajardo não vale muitos $, não é arte. O do Duchamp no museu vale $$$$$$$$$$$, é arte. Mas para nós e para quem conhece o trabalho do Duchamp, quando olhamos o secador de garrafas do tio Fajardo, somos deslocados para o do museu e vice-versa: quando olhamos um ready made caríssimo, ele não está absolutamente separado daquilo que compramos no super mercado. Isso é muito diferente (são reflexões que surgiram depois da guerra, eram bem revolucionárias) do que dizia a estética tradicional, que afirmava que arte era absolutamente separada da vida. Para o Derrida, você decide a qualquer momento, mas arte pode ser examinada a partir dessa noção de indecidível, algo que é 'contaminado' (ele gosta tb de vírus) por seu oposto, vc fica indecisa, em um primeiro momento, entre remédio e veneno quando lê sobre o farmakon (mas vai decidir que é veneno e não tomar, por exemplo). Derrida desconstrói as dicotomias (sujeito/objeto; arte/não arte; fora/dentro, etc.) sempre em dois movimentos: primeiro faz uma inversão (e vai complicar a separação entre arte/não arte e depois ele vai criar outra forma de examinar essa relação) e essa noção de indecidível é de grande ajuda e está emaranhada com as outras reflexões derridianas...
De Lalau para Olívia:
É isso aí. Derrida não é um simples mortal como cada um de nós. Ele examina lá de cima, vê todos os lados, vê o indecidível que paira sobre tudo... Nós, simples mortais, encaixotamos as coisas em "és" e "não és", vemos o secador de garrafa como arte ou não arte dependendo do quanto conhecemos sobre a história da arte... Esta simples mortal aqui consegue ver "A Fonte" do Duchamp como Arte porque vê o gesto atrevido de Duchamp na sua época lá dele, questionando a história da arte até então... os urinóis posteriores deixam de ser "A Fonte" porque não passam de simples repetição do gesto duchampiano e imitação não é criação, portanto, não é Arte (por mais que se paire acima, acho que não dá pra dizer que a Arte imita, dá?)
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