Estávamos guardando o diálogo de e-mails para postagem posterior, mas hoje saiu um artigo muito interessante no jornal Folha de São Paulo, assinado por Luciano Trigo (Caderno Ilustrada, página E7), sob o título É de fama e dinheiro que se trata a arte?. Consideramos que nossa "conversa" (datada de setembro/2007) vem a calhar.
De Lalau para o grupo:
Não sei se vocês receberam um convite para uma exposição na Unicamp. Junto veio um release, do cara que organiza a exposição. Li o release e fiquei pensando se arte contemporânea é esse palavrório todo - para dizer a verdade, não entendi patavinas do que são os trabalhos. Acho que só indo ver mesmo, para ter idéia. Será que arte precisa explicação? Ou arte é algo que se vê, se sente, mexe de alguma forma especial com a gente (mesmo em termos de gostar/não gostar)? Há alguns trabalhos de "arte contemporânea" que têm que ser tão explicados que eu fico na dúvida se serão mesmo algo que mereça ser considerado arte. DIGAM ALGUMA COISA!
De Sílvia para o grupo:
Eu recebi. Comecei a ler e logo desisti. Para mim palavreado “difícil” é para se sentir superior. Poucas pessoas entendem e as outras se sentem “burras...“ Realmente, se a gente tem que explicar muito fica como “A Palavra Pintada” de Tom Wolfe. Há mais de 15 anos atrás ele já criticava esse tipo de coisa.
De Olívia para o grupo:
Lalau, a questão que vc levantou (a obra de arte dispensa comentários? fala por si própria?) me interessa sim, o que está 'fora' (inclui os textos, os comentários dos críticos e do espectador, o seu valor venal, etc) e o que está 'dentro'? é o que o Derrida (sorry, atualmente não sei - nem posso - pensar sem o tio Jacques) chama de lógica do parergon ('para' significa fora, ao lado, etc. E 'ergon' significa obra). É justamente o primeiro ensaio do livro que eu estou traduzindo. A questão para ele é ligada ao fato de que nossa cultura ainda pensa por dicotomias (fora/dentro, por exemplo, é outra maneira de dizer sujeito/objeto, o sujeito estaria absolutamente separado do objeto, do mundo, e poderia falar sobre ele com neutralidade, clareza, etc.Poderia afirmar sem equívoco : isto é arte, ou isso está dentro ou fora da arte) Como vc vê, inclui a questão da linguagem (estaria ela 'fora' da obra?). Para o Derrida, devemos nos aproximar de alguma coisa com uma multiplicidade de pontos de vista, e não ficarmos somente em oposições. A complexidade da arte não pode ser 'emoldurada' em simples 'sujeito/objeto', 'é arte/não é arte'. Com Duchamp, acho eu, essa questão fica bem colocada em termos não-filosóficos (???? mas o que estaria dentro e fora da filosofia?): o espectador sp foi considerado 'fora' da obra, ele simplesmente contempla, retira da obra os significados que o autor colocou ali dentro. A obra fala por si própria e nós escutamos, não precisa de texto, comentários, etc. Se, como quer Duchamp, o olhar do espectador faz a obra (a linguagem constrói o objeto para o sujeito) então não há um limite bem demarcado entre o sujeito e a obra. Os limites entre o mundo e a arte ficam 'tremendo', e levanta outras questões, como o mercado de arte, o papel da galeria, etc... Tenham paciência, acho que preciso de interlocutores da minha tese e vocês estão aí pertinho (falta de orientador dá nisso)
Lalau voltou a escrever:
Continuo encucada com essa questão arte/não arte. Porque se tudo pode ser tudo (se não há dicotomias), então nada também é nada e plantar batatas pode ser arte (não que não possa vir a ser). Considerando justamente o espectador como participante constituidor da obra de arte, como alguém que constitui sentido de alguma coisa (o efeito da obra em alguém - não estou pensando no merdado (veja o ato falho, escrevi "merdado" em vez de "mercado", deixo o registro porque ele significa) da arte, porque mercado de arte pode significar simplesmente lavagem de dinheiro, compro algo porque um "crítico de arte" - claro que "valorizado" pelo mercado, porque também existem os "desvalorizados" - decreta que "este artista vai valorizar" e eu quero fazer render meu dinheiro... essas coisas. Estou pensando no efeito da obra em "mim", sujeito (com uma história, constituído pela história de suas interações com o mundo e os outros) que vê a obra e que "sofre" um efeito dela, que gostaria de tê-la pensado antes (tem inveja; e não é de toda obra que temos inveja, né?), ou que gostaria de tê-la por perto porque ela significa para ele. De tudo que há no "mercado", oferecido como "arte", nem sempre algumas coisas me parecem merecedoras do título... eu as chamaria de outros "nomes" (sei lá, "joguinhos de computador", "video-documentários", "brincadeiras"...).
E eu não acho que linguagem seja "sistema", "estrutura fechada de oposições dicotômicas", mas "quasi-sistemas" sempre em aberto. Daí que eu não encaixava Duchamp como artista (ainda acho que Duchamp era um grande gozador da arte que o precedeu ou melhor, dos "críticos" que ditavam as regras do que era "arte" naquele momento) mas agora posso considerá-lo como tal porque as ações dele passaram a fazer sentido para mim, ele colocou questões importantes em jogo, inovou, criou.
Mas o que estou questionando sobre o "release" da exposição não é a existência do "release", mas a linguagem que parece só um palavrório que nada me diz sobre os trabalhos que lá estarão... Não sei se vendo os trabalhos aquele texto passará a dizer alguma coisa. O "release" não me apresenta os trabalhos, não me motiva a ver a exposição (a não ser como uma espécie de "tira teima". As obras podem ser muito mais interessantes que o texto! Aquele texto para mim NÃO DIZ! E eu não posso considerá-lo parte da obra mostrada).
Eu gostaria de ver esse texto que você está traduzindo do Derrida.
Beijos (ando com uma tendência a polêmicas... até parece que estou escrevendo tese...)
Uma notinha acrescentada depois:
Fomos ver a exposição. As obras, sim, eram muito boas! Gostamos de vê-las! E o tal texto continuou dizendo absolutamente nada!!!
2 comentários:
Lendo agora o que escrevi no e-mail, eu acrescentaria que o sujeito � constitu�do, tamb�m, por suas intera�es com a pr�pria linguagem... LALAU
Eta palavrorio bonito so.Beth
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